quinta-feira, 5 de janeiro de 2012

O Fim do Mundo

O Sitio

Convidado para passar a noite no sitio do amigo José, por conta do horário e do transporte que só passava por aquelas bandas uma vez por dia, e mesmo assim muito cedo, para voltar a cidade Antônio teria que se hospedar no sítio do seu amigo e ir para a frente da vendinha de seu João,as cinco horas da manhã em ponto.
Convite aceito os amigos se reuniram na hora do jantar e Antônio estranhou ao ver a mesa tão farta, com tantos tipos de comidas diferente e pensou... quantas pessoas viriam jantar ? umas dez ? talvez mais ? o José deve ter convidado o povoado todo,deve ser uma festa e o Zé não me avisou.
Engano seu,aquela comida toda era só para ele e o Zé,tudo o que havia na dispensa parecia que estava na mesa, José não esqueceu de nada, até a salada era em grande quantidade.
Antônio então não resistiu e perguntou... Mas pra que tanta comida José? é para um batalhão ?
José respondeu simplesmente, Medo.
Medo de quê ? retrucou Antônio, as pessoas têm medo de bichos, ratos,cobras,insetos,e o que tem haver tanta comida assim com medo ?
-Medo de morrer de fome dormindo, respondeu José.
Você está falando sério ou é de brincadeira?
José olhou para Antônio com uma cara de reprovação que Antônio logo pode perceber que José falava a sério.
José disse que tinha mesmo medo de morrer de fome dormindo,e por isso comia muito antes de dormir.
Depois de alguns minutos de espanto, Antônio refletiu e resolveu fazer o seu prato antes que José desse fim ao estoque de comida da casa.
Logo José começou a comer e Antônio se admirou vendo a cena, José não parava nem para respirar, comia como se o mundo fosse acabar.
Bem,ele pensou, ao menos não há desperdicio de alimento nessa casa,e José não parava a boca.
Já satisfeito com sua refeição, Antônio agora apenas apreciava a  comilança de José,que ainda não satisfeito com tudo o que havia na mesa e que ele comeu, foi olhar as panelas no fogão e encontrou um caldo de carne que sobrara do almoço, José colocou o caldo para ferver, fêz um pirão e comeu.
Enfim, terminado o jantar,após cerca de dua horas de uma bela demonstração de apetite,José mostrou o quarto a Antônio e ele foi se deitar.
O sitio era daqueles bem simples,tinha luz elétrica,mas esse era um dos poucos luxos do lugar, a sala e a cozinha eram no mesmo ambiente, tinha uma geladeira que certamente José abastecia com frequência,uma pia,um armário com utensílios da cozinha, um fogão, uma televisão pequena,que não servia de outra coisa se não de móvel pois era usada apenas como depósito de roupas, um rádio mudo, um sofá já bem usado, e nos outros dois ambientes que só se diferenciavam por haver em um deles um outro armário, esses com vários cobertores e lençóis, haviam camas bem arrumadas. Como Antônio pode ver, José não era das pessoas mais bem interessadas em novidades, ou em notícias, ou mesmo em internet, não havia celular e computador então, Antônio  achou que ele nem sabia o que era.
Mas havia o lado bom, Antônio percebeu e ficou logo fascinado,com as luzes apagadas pôde ver,por uma fresta no telhado, o clarão da lua, e sentiu um silêncio inebriante,ouviu ao longe o coachar dos sapos e o cri cri dos grilos que, numa sinfonia, mais parecia um convite a uma bela noite de sono e que Antônio, por conta da correria da cidade havia tempo não desfrutava, certamente aproveitaria,enquanto José.

O Pesadelo de José.

Era alta madrugada e a farta refeição de José parecia que começava a fazer efeito.
José ouviu um bater na porta alto e insistente,levantou mau humorado,xingando e reclamando de tudo e de todos,esbravejava.
- Quem será a uma hora dessas,seja quem for vai ouvir o que quer, o que não quer e mais algumas,vou xingar até o rastro desse miserável,desse desgraçado,isso são horas?
José foi olhar pelo vidro da janela pra ver se via alguma coisa,levou um susto,um relâmpago clareou a sala e até onde a vista alcançava,um trovão em seguida,estremeceu até os ossos de José,o humor de José piorou.
O bater insistente na porta seguia,ele segurou o trinco da porta,respirou fundo,tentou lembrar dos piores palavrões que já ouvira e decidiu, vou esculhambar e vai ser agora.
Quando José abriu a porta deu de cara com uma entidade,o susto foi maior que o do relâmpago, os ossos de José voltaram a tremer. e o
O que aparentava ser um homem alto e magro, vestia o que parecia ser uma capa de chuva preta com um capus que lhe cobria a cabeça e que não permitia a José ver o seu rosto trazia uma foice longa em uma das mãos. José concluiu, pronto, é a morte.
É a morte, pensou ele, lembrou na hora de umas imagens que havia visto em umas revistas velhas que recebera como embrulho e de como seus conhecidos lhe diziam como a morte se trajava,  reconheceu convícto, é ela, a vestimenta batia.
José Pensou.
Está perdoada,essa eu não xingo nem de madrugada, ainda mais de madrugada, aí é que não xingo mesmo.
Com a voz meio trêmula José arrancou de dentro de si um resto de forças que sobrou diante da pasmação e falou.
-Dona morte ? a senhora por aqui? A que devo a visita?

A Entidade

A resposta veio rápida, foi como se a visita vivesse respondendo sempre a mesma pergunta.

-Não sou a morte, disse o visitante.
-Não? José perguntou contrariado.
-Não,disse a visita inesperada e perguntou, posso entrar?
A cor de José aos poucos foi voltando e sua fisionomia tornou, como dizem lá no sítio.
-Pode, respondeu José, entre por favor,mas se você não é a morte, quem é você?
-O fim do mundo, respondeu a visita.
-O que? o coração de José veio até a boca e voltou, José insistiu,não acreditava no que ouvira, o que disse?
-Disse que não sou a morte,sou o fim do mundo.
-José olhou aquele ser de cima até em baixo, analisou, se lembrou das imagens que fazia da morte e do que lhe diziam de como ela era e perguntou, mas, e essa roupa ? e essa foice na mão ? igualzinho como me contaram ?
-Você foi enganado José, mas não é culpa sua, é que a morte é uma invejosa,vive me imitando em tudo,até nas roupas.
-José então já não sabia mais de nada. Há pouco havia levado dois sustos que lhe estremeceram os ossos. Mas era preciso saber e José perguntou. Mas o que é você, seu fim de mundo, está fazendo justamente na minha casa ? e a essa hora da noite, antes que o visitante respondesse José esbravejou, mas isso é o fim do mundo !!!
-Sou eu, eu, respondeu a entidade.
-José ficou ainda mais confuso, não, quero dizer, sei, é você,mas o quê ?não, quero dizer,isso é impossivel!
-Não é impossivel José, eu estou aqui.
E o que você quer aqui ? continuou José espantado
Conversar,respondeu a visita,eu só quero conversar.
-Conversar ? você vem sabe-se lá da onde, numa noite de arrepiar os ossos e quer conversar ? comigo ? mas isso é o fim do mundo!
-Esse sou eu José.
-Deus do céu, valha-me São Pedro, bateu o desespero em José! Mas porque eu seu fim do mundo?
-O fim do mundo respondeu, porque esses que você falou aí estavam ocupados, sabe como é né, eles têm muito compromisso, não atendem a gente toda hora, quando a gente precisa entende ?
-José sentenciou, Não, não entendo não! mas me diga assim mesmo, quero dizer, o que você quer conversar comigo! o que é, já sei,veio acabar o mundo e resolveu começar pelo meu sítio ? é isso, mas isso é uma covardia sem tamanho !!!.
-Não José,a entidade tenta esclarecer, eu só quero conversar.
José ainda não acredita no que ouve e repete as perguntas. Conversar ?comigo ?
-A entidade, é José, só quero conversar
-Me desculpe dona morte mas acho que a senhora errou o endereço.
Não sou a morte José.
Me desculpe.
-Por quê você acha que errei o endereço José?
-Por quê ? ora uai, o quê que voce vai querer conversar com um matuto como eu?eu só sei plantar,esperar e colher.
-Isso mesmo José,você sabe de muita coisa.
-Eu?
-É,você José,você tem muita esperiência no que faz,você conhece o tempo das chuvas,o tempo do estio,você sabe a melhor época de plantar,quando está bom pra colher,você é um especialista no que faz,como todos os outros que conheço.
-E daí ? que culpa eu tenho ? isso é algum crime ? ser um especialista no que se faz, eu sempre achei que o que eu fazia era certo, aliás eu sempre quis saber plantar e colher, e hoje eu sei, o que é que tem de erradpo nisso ? onde foi que eu errei ?
-Você está certo José, não tem nada de errado em fazer bem o que se faz, em ser um especialista.
-Não tem nada de errado ? então o que diabos você tá fazendo aqui?
-Eu já disse só quero conversar.
Chega de repetir diálogo.
-Então diga,fale,se não veio acabar o mundo o que você disser eu escuto.
-O problema é que eu não sou um especialista.
-Meu Deus!
-Já disse tava ocupado.
-Não!quero dizer,e daí,você não é um especialista e qual é o problema?
-É que todo mundo que conheço é especialista no que faz e eu não,seja um agricultor como você,seja um médico,um engenheiro,um advogado,todos, menos eu.
José pensou... matutou...Agora a vaca foi pro brevo e levou a boiada toda, to aqui em casa, com o fim do mundo, vestido de morte, querendo conversar comigo porque ninguém dá bola pra ele.
José resolveu enfrentar a fera.
-Mas afinal, você é ou não é o fim do mundo?
-Sou.
-E o que você quer comigo?
-Já disse conversar.
Zé já não sabia mais o que pensar,e notou que fazendo as mesmas perguntas o mundo se acabaria e ele não teria uma resposta, José resolveu então segurar o que restava dos nervos e deixar o fim do mundo falar a vontade.
-Então conte tudo,me diga, o que você quer e o que veio ver aqui,conte tudo.
-Você ouve rádio Zé?
-As vezes, lá na venda de seu João.
-Você vê tv José?
-Televisão?
-É Zé televisão.
-Tenho tempo não,acordo as quatro da manhã tomo café e vou pro roçado,só chego de noite,tomo banho como e vou dormir,isso todo santo dia faça chuva ou faça sol, feriado, sábado ou domingo, tanto faz.
-Como pensei,então você não esta sabendo o que estão falando do fim do mundo.
-Estão falando de você? José compreendeu, mas a lingua do povo não perdoa ninguém mesmo,até de você estão falando.
José parou por um instante para refletir e pensou, mas se estão falando até dele, até do fim do mundo, o que será que não andam falando de mim ?
-E a visita puxava conversa. Estou vendo que você não tem internet em casa.
-O quê? Diz José.
-Internet José, você não tem ?.
-Você tá falando em Computador?
-Isso José,computador.
-Olha Dona morte, (José é interrompido na sua fala)
-Não José ! sou o fim do mundo.
-Me desculpe, é essa sua roupa.
-Tudo bem José, você não é o único a se confundir
-Seu fim do mundo,posso lhe chamar assim ou prefere outro tratamento.
-Tudo bem José, pode ser.
-Pronto,me diga o que é que eu vou fazer com um computador,coisa que eu não sei nem pra onde vai.
- Interagir José,saber as novidades,falar mal de político,essas coisas.
-Olhe seu fim do mundo,quando eu quero saber das novidades,que são sempre as mesmas,eu vou na venda de seu João que é um enrolão,por falar nisso não beba lá não,se quizer tomar umas cachacinhas tem uma venda na saída do povoado
O fim do mundo interrompe José de novo.
José !!!
-Desculpe, como eu dizendo,quando quero saber as novidades eu tomo umas pingas na venda de seu Jõao e ele me conta tudo,tome cuidado com ele,ele sabe da vida de todo mundo por aqui,tem gente que você nem imagina que deve dinheiro a ele.
-Em fim a o visitante reconhece.
José, você não sabe mesmo o que estão falando do fim do mundo,do calendário Maia.
José realmente não sabe do que se trata.
-Mas veja você hein, até desse tal Maia e do calendário dele o povo tá falando, continue, eu já não me espanto com mais nada.
-É isso José, o que está acontecendo é que todo mundo está falando de mim e eu não sei o que fazer.
-E você precisa mesmo fazer alguma coisa ? Falou o precavido José. Você não acha melhor deixar isso pra lá não, não que você seja uma pessoa ruim, sabe, que bota fim nas coisas, mas é isso só a lingua do povo,igualzinho lá em seu João da venda
-Eu não posso deixar para lá José,tem gente que acredita em mim.
-José parte pra consolar o visitante. Olha, você é uma pessoa de sorte,se é que você é uma pessoa, eu vivo querendo que os outros acredite em mim e não tem jeito,se eu digo que vai chover você acredita que eles só acreditam em mim se eu pagar umas pingas pra eles.
-Não é isso José é que estão acreditando em mim, e pelo que estou vendo vai ser minha primeira vez.
Agora complicou a visita complicou de vez o juizo do pobre do José.
-Como é? diga de novo! estão acreditando em você e você é virgem?
-Não José estão acreditando em mim e não sei acabar o mundo,eu não sou um especialista,se eu fizer isso vai ser a minha primeira vez,entendeu meu problema agora?
-E eu que achava que tinha problema,tudo bem você ganhou,quer uma àgua com açúcar,um chá,tem um chá aqui que é bom pros nervos eu vou ver pra você.
-Não José eu lá sou homem de tomar chá,eu só quero saber o que é que eu faço,e se eu errar? e se eu for acabar o mundo e o mundo não acabar? as pessoas vão deixar de acreditar em mim,e se ninguém acreditar em mim como é que eu vou ficar?
Uma coisa estava certa na cabeça do José:Com o fim do mundo em crise e conversando com ele essa conversa comprida, o mundo não iria acabar tão cedo.
O galo cantou a pleno pulmões, José tomou outro susto,dessa vez ele acordou.
Hora de trabalhar José,deixa o fim do mundo pra lá,pensa em como fazer de cada amanhecer um novo começo,porque tudo tem um começo José,e o fim?o fim é quando acaba.







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